A representatividade feminina em espaços de liderança ganha força nos segmentos mais estratégicos da inovação brasileira. Segundo o Observatório Sebrae Startups, a participação das mulheres em startups de impacto socioambiental chega a 21%. A representatividade é ainda mais expressiva nas deep techs: 43% dos projetos aprovados no programa Catalisa ICT, do Sebrae, são liderados por mulheres, percentual que se mantém até as etapas finais.
Apesar do desempenho nesses segmentos, no panorama geral as mulheres ainda representam 18% das startups cadastradas na Plataforma Sebrae Startups, o equivalente a 4.282 negócios com presença feminina no quadro societário, cenário atualizado em fevereiro de 2026. O percentual está alinhado ao levantamento da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), que apontou 19% de fundadoras mulheres em 2024.
Na avaliação de Fernanda Zambon, analista da Unidade de Inovação do Sebrae Nacional, os dados mostram que o avanço da liderança feminina não ocorre de forma espontânea e depende de políticas estruturadas.
“Quando há um ambiente organizado de apoio, com capacitação, mentoria e conexão com mercado, a participação feminina cresce e se sustenta”
Fernanda Zambon, analista da Unidade de Inovação do Sebrae
Ela destaca que o desafio agora é estrutural. “Ainda estamos abaixo de um quadro ideal de representatividade na fundação e na sociedade formal das startups. Não basta ampliar a entrada no ecossistema; é preciso garantir permanência, acesso a capital, redes estratégicas e condições para avançar a escala”, pontua a analista do Sebrae.
Outro dado relevante é que 61% das startups lideradas por mulheres estão nas fases iniciais, entre ideação e validação. Embora o perfil seja semelhante ao da base geral, a transição para tração e crescimento tende a ser mais desafiadora, especialmente diante de um ambiente macroeconômico mais restritivo e de barreiras históricas de acesso a investimento.
Para o Sebrae, fortalecer a presença feminina na inovação vai além da agenda de equidade. “Startups com diversidade de gênero apresentam melhores indicadores de governança e desempenho no longo prazo. Ampliar essa participação é uma estratégia de desenvolvimento econômico sustentável”, enfatiza Fernanda Zambon.
Na prática, esse movimento já se traduz em negócios de alto impacto. A T-Access, startup sediada em Recife (PE), transformou a experiência com testes de acessibilidade digital em um modelo voltado à avaliação, treinamento e desenvolvimento de soluções inclusivas. A iniciativa surgiu após a constatação de barreiras invisíveis enfrentadas por pessoas com deficiência visual no uso de softwares e plataformas digitais. “Quando começamos a usar leitor de tela nos testes, percebemos que existia um universo que a gente não enxergava. Foi ali que entendemos que precisava haver uma preocupação real com inclusão”, afirma Tarciana Katter, fundadora da empresa.
Para a empreendedora, a liderança feminina traz diferenciais importantes para negócios inovadores e sustentáveis. “A mulher tem uma escuta ativa muito forte, consegue olhar para as pessoas e para o negócio ao mesmo tempo. A gente pensa no impacto, na segurança psicológica da equipe e na transformação que quer gerar”, destaca.
Outro exemplo é a Compensei, climate tech sediada em São Luís (MA), criada a partir da trajetória de mais de duas décadas de atuação de Vilena Silva em gestão ambiental corporativa e pesquisa aplicada em sustentabilidade. A startup desenvolveu uma plataforma digital que simplifica a medição, o monitoramento, a redução e a compensação de emissões de carbono, alinhada a padrões como o GHG Protocol e a ABNT PR 2060, tornando a agenda climática acessível também aos pequenos negócios. “Eu sempre acreditei que sustentabilidade não podia ser restrita às grandes corporações. Quem move a economia brasileira são as pequenas empresas, e elas precisam estar incluídas nessa agenda”, afirma Vilena.
Ao transformar conhecimento científico em solução de mercado, a empreendedora reforça que a atuação acadêmica também é estratégia empresarial. “A ciência precisa sair do laboratório e chegar nas empresas, nos territórios, nas políticas públicas. E nós, mulheres da academia, temos total capacidade de fazer essa ponte”, conclui.
Fonte: Agência Sebrae



